quarta-feira, novembro 04, 2009

Outras leituras - George Steiner 2

A Biblioteca do Congresso em Washington excede largamente estes números. O seu fundo é superior a trinta milhões de livros, contando ainda com cerca de quatro milhões de artigos, de folhetos e de outros impressos, que ocupam oitocentos e cinquenta quilómetros de prateleiras de estante. A Biblioteca tem cerca de quatro mil e quinhentos empregados de ambos os sexos que, espalhados por uma constelação de apoio intermédias, se esforçam por tratar as cerca desete mil novas aquisições que chegam todos os dias. O orçamento anual excede os quatro milhões de dólares.


Os motivos sociais e intelectuais subjacentes a estes colossais edifícios e investimentos são múltiplos e contraditórios. A palavra escrita, sem excluir a forma impressa, mostrou-se vulnerável. Perdeu-se a grande maioria dos textos produzidos no mundo antigo. Um naufrágio que sobreveio quase à vista de Veneza fez perecer definitivamente uma colecção de clássicos de literatura e de filosofia que escapara ao saque de Constantinopla. Foram queimadas bibliotecas - em Alexandria, em 642, e em Sarajevo, em 1992. (...). O equilíbrio entre a persistência e a fragilidade é sempre instável.

A obsessão da conservação e da preservação mostra-se paradoxalmente activa na modernidade. A arqueologia, a exumação, a salvaguarda e a restauração do minimo vestígio ou fragemento do passado, transformaram-se numa paixão.

(...) Mas o mesmo se passa com as intenções futuristas e as inovações tecnológicas. Estabelece-se uma equivalência, muitas vezes na ausência de qualquer exame sério, entre o saber e o poder, entre o acesso à informação e a sua aplicação em termos sociais e económicos. Até na sua arquitectura, as novas bibliotecas se assemelham a mosntruosos geradores e centrais de energia visando transformar aquilo que se considera como saber em produção intelectual e social. Quem sabe se o próximo impresso ou publicação periódica aparentemente efémera não conterá a chave do universo?

continua